sexta-feira, 28 de março de 2008

Desnaturalizando nossos valores.

Em maio de 2006 viajei à Cuba e conheci um pouco das peculiaridades daquela ilha. Uma das muitas coisas que me chamou atenção foi a questão que contradiz a livre iniciativa comercial, uma questão bem polêmica entre os cubanos. Para abrir qualquer estabelecimento comercial sua proposta deve antes passar por uma burocracia estatal onde é analisada a necessidade de tal estabelecimento junto à comunidade, entre outros assuntos políticos e econômicos. Ou seja, para conseguir autorização para desempanhar alguma atividade econômica como autônomo você precisa de uma licença dada pelo Estado, que muitas vezes veta a proposta. Pensando nisso eu tive certa indagação: “Pô, mas e se meu sonho fosse ter um restaurante de comida tailandesa, por exemplo? Mesmo sem ser essencial pros outros é o meu sonho, e eu tenho direito de realizá-lo!”. No meu pensamento prevaleceu o individual ao coletivo, não vou entrar numa discussão política sobre esses assuntos, mas foi a partir daí que eu comecei a ter uma reflexão sobre o que é certo e o que é errado, e sobre a construção de valores das pessoas.

Essa idéia de sonho e de direitos é relativamente nova na história da humanidade, assim como a livre iniciativa, o individualismo e muitos outros conceitos naturalizados nos dias de hoje. Pra entender a formação desses valores é preciso viajar no tempo e ver as diversas transformações pelo que o pensamento humano já passou. Foi só a partir de uns três séculos para cá que o pensamento moderno veio se formando no mundo ocidental, o que é um processo muito recente em termos de História. Foi na Idade Moderna que o nosso modo de vida foi criado e consolidado, dou ênfase no termo “criado” pois muita gente tem a impressão que toda essa ideologia de hoje é uma coisa inata à natureza humana, que a nossa mentalidade sempre foi a mesma. Mas isso está longe de ser verdade, a mentalidade do homem já foi muito diferente.

As constituições nacionais e os direitos que estamos tão acostumados, por exemplo, eram totalmente diferentes na Idade Média. Todas as regras partiam da religião, era a Igreja que ditava as leis e os valores a serem seguidos. Mobilidade social e liberdade de escolha eram algumas das coisas que simplesmente não passavam pela cabeça das pessoas naquela época (de modo generalizado, claro). A monarquia era amplamente aceita, as pessoas realmente acreditavam que o rei era um enviado de Deus para governar, além de outras crenças. Só com o enfraquecimento da igreja que outras instituições ascenderam como os “criadores da verdade”. Foi aí que entrou em cena a ciência, a utilização da razão em contradição aos dogmas da Igreja. E, posteriormente, com a explosão da revolução industrial, todos os valores da humanidade foram radicalmente transformados. Podemos dizer que nesse momento a burguesia se tornou a classe dominante e conseqüentemente tomou esse lugar de poder que antes já tinha pertencido à Igreja. A Idade Moderna era oficialmente inaugurada.
É bom lembrar também que nem sempre o passar do tempo é visto como uma evolução linear. Por exemplo, muita gente considera a queda do Império Romano como um retrocesso para a humanidade, pois consideram a Idade Média atrasada em relação a alguns aspectos da História Antiga.

O que eu quis mostrar com essa rápida passagem histórica foi: como as leis, a moral, a ética e todos nossos conceitos são criados e transformados a partir de um contexto, e não são da natureza humana. A liberdade econômica, a liberdade de escolher com quem vai se casar, de escolher a profissão que vai seguir, esses não são valores inatos ao ser humano, são valores construídos. Não estou aqui pra julgar qual visão de mundo é melhor ou pior, só estou querendo mostrar a importância de desnaturalizar as ideologias vigentes. Ou seja, toda a mentalidade humana é mutável, o pensamento das pessoas funciona de acordo com o contexto vivido, se o contexto muda os pensamentos também mudarão.

Voltando ao meu caso em Cuba: Eu pensei como a maioria das pessoas ocidentais do século XX, meu comentário foi totalmente viável e aceitável na sociedade onde a gente vive, o que eu não percebí é que podem existir outras verdades além daquelas que nós estamos acostumados. Essas idéias são consolidadas e amplamente aceitas nos dias de hoje, mas isso não quer dizer que seja a única maneira a se seguir. Não é bom tomarmos o estilo de vida ocidental como o mais correto e perfeito, cada diferente sociedade tem seus valores e crenças em seus devidos momentos. Por isso que é tão difícil aceitar o diferente e o novo, nós tendemos a tomar nossa verdade como universal e única.

Talvez com algumas mudanças o nosso pensamento possa ser reformulado, e possamos passar a crer em coisas que antes eram impossíveis de se acreditar. Seria essencial um esforço para desnaturalizar nossos valores e nossas crenças, pois só assim conseguiremos entender melhor o complicado mundo que a gente vive.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Meu otimismo sobre a nova era da Comunicação.

As linguagens e sua relação com as mídias passam basicamente por quatro grandes eras. Primeiramente foi a da oralidade, onde a comunicação era mediada pela expressão corporal, as informações eram transmitidas através da palavra falada. Em seguida a essa palavra falada surgiu a palavra escrita e posteriormente os avanços em termos de prensa gráfica; muitos dizem que a prensa gráfica de Gutemberg (por volta do ano de 1450) foi a invenção mais importante do milênio, pois através da maior circulação dessa palavra escrita muito do contexto mundial foi mudado. Essa linguagem impressa foi um dos fatores que contribuíram para o mundo ocidental entrar na idade moderna.
Diferente da oralidade, os impressos têm um alcance de circulação otimizado e de certa maneira mais impactante. Enquanto pela oralidade as informações passavam pelo boa-à-boca, com os impressos a proliferação de idéias ganhava mais objetividade e potencialidade. Durante séculos a sociedade esteve submetida a um processo comunicacional calcado na palavra escrita. Um modo simplificado de enxergar como a cultura impressa tem maior capacidade de impacto é analisando a distribuição de religiões pelo globo. As religiões ditas universais (como o islamismo, cristianismo e judaísmo, por exemplo) se baseiam e dependem de textos, enquanto algumas religiões mais locais (como indígenas e tribais) mantêm suas tradições no âmbito oral.

Depois de muito tempo com a palavra sendo o ponto central da linguagem, uma revolução é iniciada. Trata-se do avanço da imagem. De uns duzentos anos pra cá a fotografia, depois o cinema e depois a televisão vieram dando novos parâmetros à comunicação social. A imagem eletrônica tirou a hegemonia da cultura escrita e criou essa nova era imagética, a imagem se tornou componente indispensável na vida das pessoas. O poder de fotos e de filmes talvez seja tão sedutor devido à necessidade de uma representação, de um “prova” daquilo que é o assunto tratado. As imagens sempre foram atreladas a uma idéia de realidade. “Uma imagem fala mais do que mil palavras”.

Nos dias de hoje nós estamos entrando na quarta era, que seria a era da multimídia. Esse paradoxo palavra/imagem vem sendo remodelado com a ascensão das linguagens digitais. Esse processo ainda está acontecendo e nós o vivemos “ao vivo”, é um fenômeno muito recente mas que já gera conseqüências visíveis. Conseqüências que a meu ver podem ser benéficas ao processo da comunicação social e é sobre isso que vou discutir aqui, especialmente a partir da ascensão da internet e do ciberespaço.

As mídias mais clássicas se baseiam num sistema de broadcasting, que seria um sistema tradicional de comunicação onde um emissor transmite para diversos receptores, o que normalmente tende mais à passividade de tais receptores. Muito foi estudado e viram que as pessoas não são tão passivas quanto se parece, apesar de espectadores o público consegue de certa forma “digerir” a mensagem transmitida conforme suas experiências, formação, vivências, etc (senso crítico). Mas é inegável a diferença entre os recursos que as mídias clássicas e as mídias digitais oferecem para aumentar a interatividade e capacidade de resposta desse público, que nem podemos mais chamar apenas de receptores. O poder de resposta que o público tem em relação à televisão ou ao rádio é bem inferior ao poder de resposta que você vai ter ao ler o meu Blog por exemplo.

Focalizando no advento da internet nós enxergamos quão mudada está essa relação emissor/receptor. As transmições já não acontecem exclusivamente num sentido único, cada nó dentro da rede do ciberespaço pode ser tanto transmissor como captador. Não vou ser ingênuo e dizer que agora acabou o monopólio da informação e que a plena democratização dos meios de comunicação está concluída, longe disso, mas o fato da estrutura existir já é um grande avanço nesse aspecto. O acesso ao ciberespaço e a “alfabetização digital” ainda têm grandes caminhos a serem percorridos, paralelamente com isso ainda existe uma imensa desigualdade em relação aos grandes “proprietários da informação” e aos menores, mas volto a dizer, a estrutura dessa rede já existe e o que falta são mudanças conjunturais, sócio-econômicas, etc. A estrutura do ciberespaço tende a uma maior universalização e menor totalização, ou seja, uma maior potencialidade à circulação e alcance e uma menor capacidade de controle e estagnação de informações.

Além da interatividade, a capacidade de se tornar emissor de idéias é muito mais concreta no sistema digital do que no broadcasting. É uma questão óbvia, dificilmente qualquer pessoa consegue lugar de fala numa mídia mais clássica, enquanto que no ciberespaço é muito mais fácil de conseguir (porém isso não implica que essa voz será ouvida por muitos). Normalmente as informações que não são viáveis na grande mídia podem ser viáveis dentro da rede digital. Um exemplo famoso e pioneiro na exploração desse novo espaço é o movimento do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que se trata de um grupo revolucionário baseado no estado de Chiapas, México. Utilizando de tecnologias modernas o EZLN ganhou projeção e apoio mundial, foi um movimento pós guerra-fria que se diferenciou de outros grupos militantes pelas suas teorias e práxis. Obviamente a grande mídia mexicana e mundial não demonstrou interesse em ceder lugar de voz aos guerrilheiros e uma das novidades que o EZLN implementou na sua luta foi a intensa utilização da internet como instrumento de mobilização social. Em suma, muitos ideais de contra-cultura não são viáveis na grande mídia por questões ideológicas dos proprietários desse sistema, então a mídia digital seria um dos recursos a disposição desses ideais.

Isso nos mostra a potencialidade que a rede digital tem em termos de verdadeira democracia na comunicação social. Na minha opinião a situação está longe de padrões utópicos, mas é um espaço muito novo (pouco mais de 10 anos) e que já apresenta suas especificidades e diferenças em relação aos sistemas mais tradicionais que estamos acostumados. Será que tamanho otimismo é exagero ?

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Sugestão de filme: Filhos da esperança

Com certeza esse foi o melhor filme que eu vi em 2007 (apesar de ser uma produção de 2006). Mas eu escuto falar muito pouco por aí sobre essa ficção científica com bons toques de drama e ação, acho que não recebeu toda a atenção que merecia. O filme, dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, me agrada em todos os aspectos, não deixa a desejar no roteiro, na fotografia e nem na ação.


A história se passa na Inglaterra do ano 2027, o planeta se encontra caminhando para o fim da humanidade, faz 18 anos que as mulheres estão inférteis, faz 18 anos que nenhuma criança nasce. No início do filme vemos a notícia que a pessoa mais nova do mundo (um rapaz de 18 anos) é assassinado, e isso faz com que a triste lembrança da infertilidade volte a latejar na mente das pessoas. O planeta está mergulhado no caos e na falta de perspectivas, o governo distribui kits de suicídio e os conflitos com imigrantes estão cada vez mais graves. Além disso e do agravamento de muitos problemas sociais, o mundo não é muito diferente do que conhecemos hoje, as tecnologias super-avançadas presentes nas ficções futuristas não são presentes nessa produção, o que nos faz acreditar que daqui a 20 anos o mundo possa ser bem parecido com aquele retratado no filme.

Theo (Clive Owen) é um ex-ativista frustrado e inerte que é subitamente procurado pelos “Peixes”, que são um grupo militante que lutam pela causa dos imigrantes refugiados. Ele recebe a missão de levar uma imigrante até o “Projeto Humano”, que é uma organização clandestina e meio secreta que faz estudos sobre a infertilidade. O que Theo descobre depois é que essa jovem refugiada está grávida, ou seja, esse bebê seria o símbolo de uma nova esperança para o planeta Terra. Porém os “Peixes” pretendem usar o bebê como bandeira para a sua luta, reforçando o fato de que a nova esperança mundial vem do ventre de uma imigrante considerada ilegal e oprimida pelo Estado inglês. A mãe da criança não concorda com uma utilização política para o seu filho, então acaba fugindo com Theo e tentam chegar ao “Projeto Humano” por conta própria.
O filme é repleto de ação, reviravoltas e detalhes inteligentíssimos, eu sou capaz de ver o filme diversas vezes e cada vez notar alguma nova mensagem que o diretor quis nos passar, seja sobre preconceito, totalitarismo, falta de tolerância, etc.

Outro fato interessante são os recursos técnicos utilizados, principalmente, na fotografia do filme. Algumas seqüências chegam a ter 10 minutos de continuidade sem corte aparente, e tudo isso com uma câmera de mão ágil e móvel. Fico imaginando a dificuldade de filmar isso, por que não são cenas fáceis, são cenas cheias de ação onde a equipe precisa estar muito entrosada e ensaiada. Vendo o Making Of do filme nós temos uma noção de quanto planejamento foi preciso para realizar estas cenas.
Uma destas seqüências é dentro de um carro, o que dificulta muito por causa do espaço fechado e apertado. A solução encontrada para fazer a tomada sem cortes foi uma complexa instalação de uma câmera que entra por cima do teto do veículo e é capaz de fazer imagens em 360 graus dos 5 personagens que estão dentro do carro além da ação que acontece fora dele. Só achei esta cena no youtube com dublagem em alemão: http://br.youtube.com/watch?v=pJ0iOWhOItE.

Outra cena extraordinária é feita em meio à rebelião que acontece dentro de um campo de refugiados, o tiro está comendo solto e a seqüência é feita toda numa tomada só. Uma única câmera de mão acompanha Theo fugindo das balas e a tela fica toda respingada de sangue. Essa técnica traz muita emoção e tensão ao filme, dá aquela sensação que é uma câmera digital carregada por alguém que realmente participou dos fatos retratados no filme.

Esse filme, que é inspirado num romance chamado Children Of Men (nome original do filme em inglês), é um dos meus preferidos tanto pela temática como pela estética utilizada. Um fator pessoal que me fez ficar interessado no filme é que em junho de 2007 eu fui para Alemanha acompanhar os protestos contra o encontro do G8 em Rostock, e aprendi um pouco sobre a realidade que os imigrantes enfrentam nos campos de refugiados. Boa parte dos movimentos sociais europeus é encabeçada pela causa dos imigrantes do terceiro mundo, e gostei de ver essa temática ser tão enfatizada nesse filme.
Vou fechar a postagem com uma frase que aparece num programa de rádio que as personagens escutam num momento do filme, o radialista diz: “Agora vamos tocar uma música de 2003, quando as pessoas se recusavam a aceitar que o futuro estava a um passo”. Filhos da esperança pode servir como um alerta ao caminho que o planeta vem tomando, talvez daqui a pouco seja tarde demais e todas as expectativas de um mundo melhor podem se esgotar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Funk Carioca: A sua função.

Muitas discussões acadêmicas hoje em dia se preocupam em definir o que é e o que não é arte, eu particularmente acho essa uma discussão desnecessária. Arte pra mim é tudo ou é nada (principalmente na era da reprodutibilidade técnica), então não existe utilidade em delimitar o que é considerado arte ou não. O conceito de “artista” tem sua origem junto com o conceito de “intelectual”, tanto os artistas quantos os intelectuais ocupam um lugar de status na sociedade, originando uma hierarquia relacionada à divisão de trabalho. Essas pessoas que supostamente tem o “dom” da arte ou do intelecto avançado ocupam cargos de prestígio deixando o trabalho braçal para os “menos agraciados”. Uma forma simples de enxergar como esses conceitos não são tão naturais é olhar para os primórdios das sociedades, os indígenas por exemplo não distinguiam arte de não-arte, um cocá usado por um pajé não é uma obra de arte e sim um objeto com sua função ritualística. É importante tratar esses conceitos como convenções criadas e inventadas que precisam ser desnaturalizadas do nosso pensamento, coisa que faz muita gente que se auto intitula intelectual torcer o nariz. Uma discussão útil e válida de aprofundamento seriam as funções e objetivos esperados das diferentes expressões estéticas

Se referindo agora ao Funk carioca, nós vemos na postagem anterior que o seu desenvolvimento foi sempre relacionado a bailes e festas, ou seja, é por excelência uma música voltada para a pista de dança. Certa vez comparei uma produção de funk com uma colagem de Picasso. Um elemento usado numa das colagens vanguardistas de Picasso tem uma função no conjunto da obra, existe um significado para cada elemento se relacionando com os outros. Numa música para dançar nem sempre os elementos precisam se relacionar e fazer um sentido no conjunto daquela obra, e sim precisam ter uma função sensorial ao ouvido e ao corpo de quem a ouve.
As produções de Funk se baseiam na prática do sampler, que são elementos retirados de uma música já preexistente e copiados/colados/misturados com uma nova produção, prática muito utilizada na música eletrônica. Como já disse, esses samplers não precisam necessariamente ganhar significado junto ao conjunto da obra e sim soar bem aos ouvidos e estimular sensorialmente o corpo das pessoas. Muito se diz sobre a pobreza musical do funk carioca, mas olhando para uma pista de dança é fácil reparar que não são necessários melodias e arranjos complexissímos para o público sentir-se envolvido pela música. Num comentário da postagem anterior um cara questionou a qualidade musical desse estilo, dizendo que comparar James Brown com funk carioca seria o mesmo que comparar “vinho com água de esgoto”. Porém percebí que essa pessoa não fez uma análise aprofundada sobre o tema é só se expressou baseando-se numa impressão superficial e talvez influenciada por fatores externos.
Não cabe a mim dizer que o funk carioca é melhor que James Brown ou dizer que ambos estão no mesmo patamar, mas digo que suas canções também se enquadram como música para dançar (por sinal, também muito bem sucedidas), e analisando os seus dois maiores sucessos (I feel good e Sex Machine) nós notamos e reforçamos algumas das mesmas questões que eu citei para o pancadão do Rio. As suas letras são muito simples e de fácil assimilação, e sua melodia não é nada complexa (linha de baixo constante, metais e guitarra trabalhando repetitivamente). Isso nos reforça o argumento de que para o público sentir-se envolvido pela música não são necessários arranjos trabalhosos e detalhes perfeccionistas, basta se alcançar uma sonoridade que agrade aos sentidos do público dançante. Esses meus argumentos podem ser retrucados com comentários do tipo “Ah, então vale fazer qualquer porcaria pra fazer os outros se sacudirem ?”. Qualquer porcaria não, mas uma música simples e descontraída pode suprir as necessidades e expectativas do público, mesmo deixando a desejar em outros aspectos fora da pista de dança.

Como todo produto que não pertence à classe dominante, o funk sofre estigmas e preconceitos já naturalizados na mente das pessoas. Mesmo com a consolidação do funk como expressão dos subúrbios e favelas, a opinião pública continuou a perseguir os funkeiros. Um fato marcante para a formação desse preconceito aconteceu em outubro de 92 quando aconteceu o “arrastão” nas praias do Rio. A polícia, sem identificar os agentes do distúrbio, imediatamente disse “eram os funkeiros”. A mídia usou esse fato para relacionar ainda mais os bailes funk com violência e bandidagem. A favela sempre sofreu preconceitos, e com os funkeiros não foi diferente. Um outro assunto sempre presente é a função social das musicas “marginalizadas”, assim como o funk e o rap. A maior parcela do movimento do funk carioca não tem como prioridade um esclarecimento quanto à função social que sua música tem, diferente do Hip Hop que desde a sua origem foi um movimento de reação aos conflitos sociais e à violência sofrida pelas classes menos favorecidas da sociedade urbana, um movimento que reinvindica um espaço de voz, de discussão e de protesto contra o preconceito, a miséria, a exclusão e etc. É notável que muito da cultura hip hop foi apropriada para outros fins, mas não dá pra negar essa origem militante do estilo.
Porém por sua vez, o funk também tem seu papel de voz da periferia. Mesmo não tendo como objetivo principal e inicial o protesto e a denúncia, muitas de suas letras expõem a realidade do cotidiano vivido nas favelas do Rio e explicitam o que antes não era de conhecimento de parte da sociedade. É interessante o que o Dj Marlboro diz sobre esse assunto: “A sociedade deveria aproveitar as informações que essas músicas estão trazendo de dentro das favelas e criar um mutirão urgente de invasão à comunidade pela sociedade, uma invasão de oportunidades, de perspectiva, de cidadania”. E sobre a apologia ao sexo e à violência encontrada nas letras ele diz: “Tenho que dar um desconto, por compreender o grau de instrução e orientação que faltou a quem escreve. Talvez soubessem se expressar melhor se tivessem tido a oportunidade de uma educação decente. Daí saberiam identificar a linha tênue do limite entre a apologia e o relato”. De uma forma espontânea, os funkeiros abriram os olhos de muitas pessoas em relação à vida nas favelas, e sua função social veio como um reflexo que a sua música causou. Apesar do Funk não ter nascido com essa preocupação militante que o Hip Hop tem, os dois movimentos são a voz do povo da favela e da periferia gritando, alertando, informando e também incomodando quem a escutam de fora. Além de funcionar como denuncia, o funk também funcionou como divulgador do potencial encontrado dentro das comunidades pobres. O Funk, como outros estilos, mostrou novamente como uma expressão oriunda de uma classe mais pobre faz sucesso e tem capacidade de virar evidência entre as classes mais abastadas. Hoje em dia os bailes que antes eram freqüentados pelos próprios moradores da comunidade também atraem o público rico de fora. Temos diversos exemplos de como o som da favela foi apropriado e transformado em som para classe média, exemplos são CDs produzidos por gravadoras mainstream e de patrocinadores como Luciano Huck e Xuxa, e também as regravações de funk como as que foram feitas por Lulu Santos e Roberto Carlos, isso sem falar nos produtores internacionais que já se renderam ao nosso batidão. O funcionamento do sistema fonográfico sempre foi assim, sucesso é igual a lucro e os funkeiros foram reconhecidos como sucesso, então nada mais óbvio do que integra-los ao sistema. Pelo menos assim as pessoas de dentro da favela recebem algum prestígio e reconhecimento.

Apesar das diversas portas abertas, o funk ainda é um estilo marginalizado que sobrevive com muita batalha independente da grande mídia, coisa que muita gente metida a intelectual chama de underground mas ainda insistem em dizer que essa música carioca é lixo da pior espécie.E o mais engraçado é que esse lixo ta tão em evidência que já até invadiu o tão cultuado Tim Festival e outros locais de “gente cabeça”.

P.S: Pra quem não sabe eu sou DJ em Niterói, e em praticamente todos os eventos que eu toco a seqüência de Funk é o auge da noite.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Funk Carioca: O seu batismo.

Hoje em dia ao se falar de Funk o que vem à mente da maioria das pessoas é o ritmo dos diversos "bondes" e Mc’s cariocas, mas na verdade este termo originalmente se refere a outras coisas. Ao se falar da origem do termo FUNK CARIOCA nós acabamos falando também de boa parte da história desse estilo, o "batismo" do Funk está diretamente relacionado com o desenvolvimento e apropriações musicais que originaram o pancadão contemporâneo.

Na década de 70 as festas de black music já eram uma realidade, mas alguns bailes (primeiramente comandados por Big Boy e Ademir Lemos) começaram a se dedicar mais ao som do funk americano, conhecido também como soul music (James Brown, Kool & The Gang, Earth Wind and Fire, Tony Tornado, Tim Maia, Sandra de Sá, etc). Esse bailes, que deixavam o rock e o pop mais de lado, se concentravam em clubes na zona norte do Rio, sem local fixo. O sucesso de público dessas festas, que chegavam a atrair 10.000 pessoas numa noite, despertou interesse de produtores e foi assim que surgiram as primeiras equipes de som. Em meados dos anos 70 já existiam cerca de 300 equipes de som atuando no Rio, entre elas Sound Grand Prix, Furacão 2000, Hollywood, Big Mix, etc.
Nessa época os bailes eram bem diferentes do que os de hoje em dia, eram festas mais de cultura black power e ainda não existia essa cultura de "thuthuca e popozão". Existem várias teorias de como esses bailes começaram a ganhar o formato que conhecemos hoje, a mais óbvia seria que os Djs da primeira leva ficaram velhos e seus substitutos traziam influências diferentes daquelas da soul music mais "clássica", como o Hip Hop e R’n’B. Mas é certo que os bailes só tomaram o rumo para virar o que é hoje na década de 80, com a entrada do estilo Miami Bass no repertório dos Djs, que pode ser considerada uma vertente mais eletrônica do Hip Hop (exemplo: Afrika Bambataa - Planet Rock).

O Miami Bass é um estilo da Florida que tem como características um BPM acelerado e graves bem marcantes. Segundo o Dj Marlboro, "o Miami Bass estorou no Brasil antes mesmo de estourar nos EUA. Uma explicação pra isso pode ser a batida mais grave das baterias eletrônicas, que tem semelhança com o nosso surdo do samba". Outros fatores que contribuiram para o sucesso desse estilo nos bailes cariocas podem ser: o ambiente latino e praiano que o Rio e Miami compartilham, as letras descontraídas e cômicas (diferente do Rap engajado), as vezes de apelo sexual, e o forte potencial dançante de suas melodias e batidas. Esse estilo caiu como uma luva para os produtores e foi super aceito pelo público.
Umas das curiosidades desse período foi a criação dos melôs. Na noite era tocada 100% de música internacional, e como o público não tinha conhecimento da língua inglesa surgiram versões "abrasileiradas" cantadas por cima da música original. Assim também era mais fácil para as pessoas trocarem informações sobre as músicas, pois muita gente ficava constrangida por não saber pronunciar aquele nome em inglês. Alguns exemplos são: "You Talk Too Much" que virou "Taca Tomate", conhecido como melô do tomate, ou "It’s Automatic" que virou o melô do "Thothomere".
Para o início das produções em língua portuguesa foi um pulo, a partir do meio dos anos 90 alguns bailes já tocavam 100% de música nacional. A roupagem de Miami Bass foi preenchida com influências nacionais e virou o Funk que conhecemos hoje.
Mas enfim, como eu disse, falar da história desse estilo é o mesmo que falar de onde vem o nome FUNK. O nosso "Miami Bass abrasileirado" é chamado de Funk pois na transição dos antigos bailes funks (onde se tocava funk americano, soul music) para os "modernos" (que tocam Miami Bass), a nomenclatura não foi trocada, ou seja, as pessoas continuaram dizendo "Estou indo ao baile Funk". Mesmo sem influência direta do Funk americano, o termo foi mantido até hoje para se referir a esse estilo tocado nos bailes e festas do Rio de Janeiro. Você pode falar que James Brown é o pai do Funk americano, mas do Funk carioca ele é no máximo um tio-avô.

Espero ter feito vocês compreenderem um pouco sobre essa confusão que existe entre o Funk de James Brown e o Funk do Mister Catra, um problema de nomenclatura mas que para a multidão dançante não atrapalha em nada, já que festa é festa e o que importa é curtir e dançar. Uma coisa que eu sempre insisto em dizer, independente da qualidade musical do Funk, ele desempenha sua função com maestria, que é não deixar ninguém parado a noite toda. Muita gente ainda descrimina esse estilo carioca, mas é só olhar para as pistas de dança (e hoje em dia também para alguns lugares mainstream da mídia) e ver como o pancadão é bem sucedido. Isso dá assunto para uma próxima postagem ;)

domingo, 25 de novembro de 2007

La Bodeguita Del Medio


No filme Miami Vice, Collin Farrel está a fim de tomar um mojito, uma outra personagem sugere La Bodeguita Del Medio em Havana, Cuba. Chegando lá, é um cabaré animado com música caribenha e uma bela vista para a orla.

A verdadeira Bodeguita não é muito parecida com a do filme. É um bar modesto e aconchegante numa rua interna de Havana velha, meio apertado e vive cheio de gente confraternizando em seus andares. Suas paredes descascadas têm milhares de assinaturas e recados escritos à caneta, e também muitas fotos emolduradas de artistas, escritores, políticos e todo tipo de personalidade que visitou o boteco - de Chico Buarque a Hugo Chávez.
A Bodeguita é um dos bares mais emblemáticos do mundo, os revolucionários cubanos bebiam seus mojitos, comiam feijão e carne de porco por lá. Sua fama é reconhecida nos 4 cantos do planeta, é um "clichê" turístico assim como o pão-de-açucar para o Rio de Janeiro. Minha experiência no Botequinho Do Meio foi muito breve (passei por lá muito rápido e só tomei um jugo de naranja), mas definitivamente tive aquela sensação de áurea do lugar.


Visitei Cuba em maio do ano passado, conheci Havana, Santiago de Cuba e Varadero - Talvez num outro post eu dê mais detalhes sobre a viagem. Foi uma experiência única, porém não satisfatória. Ainda tenho muita vontade de voltar lá e conhecer mais daquela ilha, que pra mim é um exemplo de resistência.
Um ótimo jeito de visitar Cuba é através das brigadas de solidariedade, que acontecem no início de todo ano, acho que em janeiro. (mais informações em http://www.josemarti-rj.cjb.net/).
Outra coisa pra se levar em consideração é o reveillon cubano, que é motivo de dupla festividade. Obviamente a virada de ano e também o aniversário da revolução, que em 2009 completará 50 anos. Meu desejo é de voltar lá e prestigiar essa cinquentona em seu aniversário, então nada melhor do que fazer planos para o final de 2008. Virar o ano, comemorar o aniversário de la revolución e ainda emendar com a brigada. Seria ótimo, não ?


P.S: Tomara que até lá Fidel esteja vivinho da silva.

sábado, 24 de novembro de 2007

Segundo

Preciso começar a escrever nisso aqui, nada melhor do que uma pequena introdução, uma apresentação.
Não vou falar muito sobre mim, é um Blog pessoal mas não do estilo “querido diário”. Também não é um Blog segmentado, ou seja, não tem tema principal e nem linha de raciocineo a ser seguida. Aqui vai ser um lugar para escrever idéias que surgem do nada na minha cabeça, cada post é independente do outro e não precisam seguir a mesma vertente.Como qualquer pessoa eu penso coisas variadas, não penso em tudo de uma vez só e nem penso apenas focalizando um objeto isolado, o pensamento é um grande hipertexto.
Sem uma segmentação é difícil suprir expectativas, por exemplo, alguém que se interesse por futebol vai procurar um Blog esportivo, ou alguém que procura algo sobre MPB pode ter como referências Blogs sobre música ou cultura brasileira. Ainda não posso delimitar temas que vou abordar aqui, vou tentar ser o mais espontâneo possível, e só com o tempo irei tomar algum rumo específico. Única coisa que posso dizer é que será um Blog urbano que, como uma grande metrópole, tem suas misturas caóticas de diferentes idéias.
Bem, por enquanto é isso, vamos ver se vai pra frente essa idéia de ter um Blog, vamos ver se consigo manter uma coerência, já que vou falar sobre assuntos tão diversos. Queria poder adiantar mais coisas pra vocês mas, como disse, só com o tempo vou ter um objetivo mais centrado, ainda é cedo pra criar alguma expectativa específica.